“A universidade pública ainda reproduz um modelo tradicional e muito conservador”

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“A universidade pública ainda reproduz um modelo tradicional e muito conservador”

7 de novembro de 2018

Entrevista Remi Castioni

O pesquisador Remi Castioni, da Faculdade de Educação da UnB, é um dos convidados do II Congresso UFPE em Debate. Ele integrará a mesa Universidade, Ciência, Cultura, Tecnologia e Inovação, no dia 7 de novembro (quarta-feira), no Auditório Barbosa Lima Sobrinho (CFCH) da UFPE. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UnB, ele trabalha com temas como educação profissional e relação com o mercado de trabalho. Estuda também a dimensão da educação profissional e tecnológica e os desafios para a inserção profissional.

Nesta entrevista, Castioni critica o modelo atual da universidade que permanece conservador mesmo após a expansão do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Runi). O pesquisador destaca os cortes de recursos que afetaram, principalmente, as pesquisas. Aponta os desafios de inovar, se adequar a novos públicos e formar com qualidade os profissionais de ensino da educação básica.

Formação e recursos humanos

O Brasil precisa de pesquisadores para atuar tanto nas universidades quanto nas empresas. O conhecimento gerado na universidade é, de alguma forma, transformado e aplicado. Mas há uma inversão completa dos investimentos em Ciência e Tecnologia (C&T). O Brasil, além de investir pouco em C&T, investe notadamente no público, as empresas investem muito pouco. Além disso, nossa participação na formação de recursos humanos é muito baixa.

Investimentos em C&T

Tivemos uma redução no orçamento do âmbito da Educação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), mas ela não foi tão significativa quanto a redução no financiamento da infraestrutura da pesquisa. Nele está efetivamente o orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em que se articula o fundo nacional de desenvolvimento científico e tecnológico e os fundos setoriais que sofreram reduções drásticas. O funcionamento dos laboratórios, por exemplo, vem desse financiamento, é dinheiro que os pesquisadores captam via recursos do CNPq e outras agências de fomento. E eles sofreram uma diminuição muito significativa e isso, evidentemente, nos preocupa.

Nessas atividades, temos a formação dos quadros técnicos, formação de recursos humanos e o desenvolvimento das pesquisas, em que estão os elementos das atividades práticas dos pesquisadores que investigam. Estamos sacrificando a infraestrutura que dá as condições para formação de recursos humanos. O grosso do financiamento da infraestrutura no Brasil vem do Ministério da Ciência e da Tecnologia e o CNPq é responsável por grande parte do orçamento.

Poucos estudantes na universidade pública

Bom, na universidade nós reproduzimos um modelo que é, em geral, atrasado e conservador. Embora tenhamos tido uma expansão muito significativa de universidades nos últimos anos, ainda reproduzimos um modelo muito tradicional. Então, no Brasil, a universidade é aquela que tem que conter entre suas ações o ensino da pesquisa e extensão, e possuir 30% de mestres e doutores. Entre as nossas ofertas educativas, nos últimos anos, nós ampliamos, e muito, o número de cursos superiores, mas não necessariamente em universidades e é aí que está a grande questão. A proporção que temos na universidade pública é desfavorável em relação ao que temos na educação privada (ensino superior).

A cada quatro alunos do ensino superior, apenas um estuda em universidade pública. Portanto, três quartos dos nossos alunos do ensino superior estão estudando em outras formas de inserção. Alguns recebem uma bolsa, uma parte desses, bolsa parcial, outra parte, integral, e outros ainda são beneficiados pelo crédito educativo do FIES. E 50% dos nossos estudantes pagam universidade. Ao longo desse processo, nós não conseguimos definir padrões de qualidade. E nos últimos anos, o que houve foi um aumento desenfreado de cursos superiores, ampliando o mercado para os negócios da educação superior.

Ingresso por profissão

Quando a universidade pública se expandiu, a partir de 2006-2008 com o Reuni, reproduziu um modelo muito tradicional e conservador, um modelo que já existia. Com exceção de algumas universidades que já surgiram inovadoras, a grande maioria reproduz um modelo tradicional. É um modelo em que os alunos ingressam por uma profissão, há determinado número de professores pra cuidar dessa profissão, uma relação de alunos que vai se formar nela, uma grade curricular de quatro ou cinco anos, em que existe uma alta taxa de evasão e o sistema de ocupação de vagas tem um padrão muito fixo. Um estudante que ingressa num curso e depois evade, torna uma vaga presa ao sistema, então nós temos desempenhos muito pífios na relação professor-aluno.

Temos também 30% dos nossos cursos superiores concentrados nos cursos de Pedagogia, Ciências Contábeis, Direito e Administração. Das 8 milhões de matrículas, 2 milhões e meio estão nesses cursos. Então há uma taxa muito baixa de inovação na universidade. Como podemos admitir que um jovem de 16 anos escolha a profissão que vai desempenhar pelos próximos 50, 60 anos? Optam por uma profissão aos 16 para se ocuparem nos próximos 60 anos.

Formações diferenciadas

Ao expandir, não pensamos em formatos mais horizontais. Tivemos algumas experiências que sofreram enorme rejeição por parte dos professores das novas universidades. Como por exemplo, um bacharelado interdisciplinar em Ciências, Humanidades ou Tecnologias, em que depois de cumprir um ciclo formativo de ensino superior de dois anos e meio, o estudante poderia fazer uma opção para um ciclo formativo de segundo nível em que pudesse ingressar em carreiras mais comparadas às tradicionais, e depois buscar um aperfeiçoamento em mestrado, ou mestrado profissional e até um doutorado que exatamente são as tendências de programas mais aplicados para resolver problemas mais imediatos que surgem das necessidades das novas tecnologias.

Universidade Inovadora

O mundo todo, hoje, discute a quarta Revolução Industrial ou a indústria 4.0 e o Brasil não tem nenhuma ação nessa direção. Temos algumas iniciativas muito tímidas. Enquanto universidades no mundo todo estão mudando seus currículos e pensando no formato de cursos para essas novas tendências, nós temos um modelo muito tradicional, ligado à carreira acadêmica da universidade e não conseguimos sair dessa jaula. Então nós somos muito pouco inovadores e como não inovamos antes, somos cobrados hoje.

Novos públicos

Acho que o grande desafio é repensar os cursos na universidade, repensá-la para outros públicos como processo de elevação do aumento da vida das pessoas. Atualmente, só pensamos em ingresso para jovens de 16/17 anos. Estamos vivendo mais e temos que pensar, por exemplo, em ingresso para pessoas de outras faixas com acesso diferenciado. São pessoas que já têm um certo grau de maturidade ou têm outras relações profissionais e querem voltar pra universidade para se aprofundar.

Formação de professores

Outra questão é voltar os nossos cursos para formar a matéria-prima que alimentará a relação entre a universidade e a educação básica. Que ações a universidade está realizando para melhorar a formação dos professores que vão atuar na educação básica? Hoje, inclusive, nós temos a grande crise das licenciaturas. Os cursos que formam professores são exatamente esses, mas, o que temos feito para melhorá-los? Estamos fazendo mais do mesmo. O modelo atual não se sustenta, então a taxa de ocupação desses cursos é extremamente baixa. Há quatro áreas em que faltam professores no Brasil: matemática, física, química e biologia. Nos cursos de física, por exemplo, a taxa de abandono é uma das maiores. Se nós olharmos para os cursos de física isoladamente, veremos que eles não se viabilizam, apenas integrados às engenharias. Boa parte da formação dos engenheiros tem conteúdos de física, então os professores ensinam nas engenharias. No final dos cursos de licenciatura em física, ficam dois ou três alunos. Chega a ser vergonhoso termos professores dos níveis que temos nas universidades públicas, ensinando para essa quantidade de alunos, pois deveria ser muito mais. Então, precisamos repensar o papel da universidade e o seu compromisso com a formação dos professores na educação básica.