Solidariedade contra ordem de despejo do Centro de Formação Paulo Freire

Um dos ícones da resistência do trabalhador da agricultura e luta pelo direito de cultivar a terra em Pernambuco, o Assentamento Normandia virou alvo de novos ataques do Governo Federal. Numa luta contra o tempo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tenta reverter a ordem de despejo autorizada pela Justiça no Centro de Formação Paulo Freire, em Caruaru, no Agreste. O espaço atua há 20 anos na formação educacional dos assentados e seus filhos no estado oferecendo capacitação e desenvolvendo pesquisas em agroecologia. A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco se solidariza com o MST e vem a público ressaltar que é inadmissível tamanho golpe no ensino ao homem do campo.

“Dessa forma, temos mais um ataque a educação, em especial na área crítica que é a formação para o trabalhador na agricultura. Esse espaço tem sido importante para o levantamento de processos educacionais que tem gerado pesquisas realizadas pelas universidades instaladas em Pernambuco. É mais um golpe contra a educação no país”, pontuou o diretor Audísio Costa.

O despejo fora solicitado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e ignora todo o trabalho desenvolvido no Centro de Formação. A Justiça Federal estipulou o dia 19 de setembro como prazo final para reintegração de posse da área onde fica o Centro de Formação Paulo Freire e três agroindústrias de beneficiamento dos produtos dos trabalhadores rurais.

Na decisão, o juízo federal da 24ª Vara Federal de Caruaru aceitou o pedido do Incra e determinou a imediata reintegração de posse salientando que, se não houver a desocupação espontânea dentro do prazo, será expedido o mandado de reintegração de posse. Ainda no documento, já fica autorizado o uso de força policial caso não seja cumprida a decisão, incluindo arrombamento, condução coercitiva para a Delegacia de Polícia Federal em caso de resistência, remoção dos bens móveis e remoção dos animais para o “Curral de Gado”, também já autorizando a doação ou o abate.

No Brasil estão os maiores latifúndios. A concentração e improdutividade das terras possuem raízes históricas que remontam o início da ocupação portuguesa e, aliada a isso, a monocultura para exportação e a escravidão deram origem a forma de ocupação de nossas terras que geraram a desigualdade social até os dias de hoje e perpetuam desmandos como o que está sendo impetrado em Pernambuco.

Logo após a criação do assentamento (1998) e em comum acordo com o Incra, a cooperativa dos assentados repassou a casa sede e mais 14 hectares para criação do espaço de formação e capacitação dos trabalhadores rurais. Em 1999, foi criado oficialmente o Centro de Formação Paulo Freire, hoje com 20 anos no trabalho de educação do homem do campo.

O referido espaço abriga a sede, um alojamento com capacidade para 240 pessoas, o auditório com 800 lugares, salas de aulas, Tele Centro, Casa da Juventude, uma Academia das Cidades, hoje chamada Academia do Campo (construída junto ao Governo de Pernambuco), a Quadra Esportiva e a Ciranda Infantil (creche). Com o apoio da Federação Unificada dos Petroleiros, foram construídos e ampliados o refeitório e a cozinha. Ainda há três agroindústrias que pertencem à cooperativa agropecuária de Normandia: a agroindústria de beneficiamento de carne, de raízes e tubérculos e de pães e bolos.

Nestas duas décadas de atuação, o Centro de Formação ofereceu diversos cursos e manteve parcerias relevantes com a Universidade Federal de Pernambuco, Universidade de Pernambuco, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Instituto Federal de Pernambuco, Fiocruz e com o Instituto Agronômico de Pernambuco. Mais recentemente, estabeleceu um acordo para oferecer o curso de geografia com a UPE e iniciou o doutorado em agroecologia.

No Centro, foi oferecido o primeiro curso popular de veterinária e agroecologia Com apoio dos professores das escolas dos assentamentos, desenvolveu um exitoso Programa de Educação de Jovens e Adultos do Campo, que teve parceria da Secretaria de Educação de Pernambuco. Entre os cursos disponibilizados, ainda há especialização em promoção e vigilância em trabalho, em educação no campo, educação e saúde com ênfase na formação de preceptores de residência multiprofissionais em saúde, residência multiprofissional em saúde da família com ênfase em saúde da população do campo, o curso intercultural indígena, entre outros. O Centro também recebeu congressos internacionais, como o foro da terra, além de vários encontros nacionais, o que fez com que se tornasse referência de formação e capacitação, sobretudo, no ramo da agroecologia.

Assim, é incompreensível qualquer ação contra um Centro de tão relevada importância educacional para o homem do campo.

Clique e leia a nota divulgada pelo MST a respeito da ordem de despejo

 

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