“Em tempos sombrios, a atividade filosófica revela toda sua dignidade e relevância”, pontua Adriano Correia, presidente da Anpof

Nas palavras do doutor em filosofia Adriano Correia, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia e vice-presidente da Rede Iberoamericana de Filosofia, não é por acaso que os períodos de maior combate à atividade filosófica coincidam com os de obscurantismo aos pensamentos que não são mero conformismo. Mediante a ameaça da retirada da disciplina das escolas com uma iminente aprovação da nova Base Nacional Curricular Comum e com o contingenciamento dos recursos, é preciso compreender o ensino como direito e lutar para garantir uma educação pública gratuita, inclusiva e de qualidade no país. Para discutir os assuntos permeados pela ótica da pensadora alemã Hannah Arendt, o professor de ética e filosofia política estará no Recife, nesta terça-feira (27), para participar do 12º Encontro Internacional Hannah Arendt. Confira a entrevista:

Como você despertou para a filosofia?
Ingressei no curso de filosofia com 16 anos motivado por questões religiosas e sem saber muito o que iria encontrar, embora a experiência com a filosofia no ensino médio temperasse meu desconhecimento com curiosidade e uma boa dose de entusiasmo. Inicialmente, tive muito dificuldade em apreender a especificidade da escrita filosófica, mas já comecei o segundo ano do curso acreditando saber o que queria fazer por toda a vida.

Como está o mercado para filósofos no país?
Os graduados em filosofia – como em matemática, física ou história – possuem como principal campo de atuação profissional o ensino da disciplina, embora possam atuar e efetivamente atuem em várias ocupações das áreas da cultura e da educação. Desde que a matéria tornou-se obrigatória no ensino médio, há pouco mais de dez anos, o campo para os formados foi ampliado e se consolidou absorvendo boa parte dos novos formandos que a recente expansão extraordinária do ensino superior proporcionou. Caso a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) venha a ser implementada – confusa, imprecisa e inconsistente como é –, certamente provocará uma redução nesse campo principal de atuação. Temos visto, entretanto, que as várias unidades da federação, que respondem pelo ensino médio, têm mantido em seus concursos vagas para ensino de filosofia compatíveis com a estrutura do ensino médio pré-BNCC.

Há uma tendência à desvalorização do ofício? Por quê?
A “tendência” de desvalorização da atividade filosófica nasceu junto com a filosofia, sendo mais forte em umas épocas que em outras. Não é casual que os períodos de maior combate à atividade filosófica coincidam com os de combate obscurantista a todo pensamento que não seja mero conformismo com as coisas tais como são. Para os conformistas, adesistas e dogmáticos de toda sorte, a filosofia será sempre um incômodo. E é também por isto que ela subsiste, porque nem todos são ou querem ser conformistas, adesistas ou dogmáticos. Usualmente, é em tempos sombrios que a atividade filosófica revela toda sua dignidade e toda sua relevância. A eleição da filosofia como alvo primeiro do combate cultural dos que agora estão no poder é algo que não podemos desdenhar, mas é também a prova do seu vigor e da sua urgência.

Hannah Arendt é considerada umas das mais influentes pensadoras do século XX e, em sua obra mais famosa, trata sobre regimes totalitários e de extrema direita. Como suas teorias mudaram a nossa forma de observar a política?
Hannah Arendt é dessas pensadoras que se entusiasmavam com a capacidade do pensamento de nos situar no mundo e de criar condições para fazer dele nossa casa ou edificar uma casa nele. Um mundo arruinado não é uma refutação da capacidade humana para o novo no pensamento e na ação. Ela foi reconhecida justamente quando publicou a obra clássica “As origens do totalitarismo” (1951), na qual buscou caracterizar a nova forma de governo representada pela dominação total que tinha como instituição central os campos de extermínio e como ferramentas maiores de controle a propaganda e o terror. Parte da importância da obra ainda nos dias de hoje se deve a sua defesa, contra as interpretações liberais, de que o totalitarismo era a morte da política e resultava da falta de política e não de seu excesso.

A obra de Hannah Arendt revela uma filosofia da pluralidade e da natalidade, da nossa capacidade para o novo. Que tenha entrevisto isso em sua análise do totalitarismo é o sinal mais radiante de sua confiança na dignidade da política em antagonismo com os princípios que presidem a economia e a cultura da violência.

Como esse pensamento pode ser aplicado no Brasil dos tempos atuais?
Não penso que um pensamento possa ser aplicado a uma realidade – mesmo que manifeste pretender isso, o que não é o caso de Arendt. Ela recusou conscientemente o papel do intelectual como vanguarda na definição dos rumos políticos em oposição clara a como se compreendiam muitos pensadores seus contemporâneos. No prefácio de uma de suas principais obras, “A condição humana” (1958), ela diz que escreveu o livro não pretendendo oferecer respostas aos problemas do nosso tempo, que devem ser encontradas no foro adequado que é o espaço público, mas “pensar o que estamos fazendo”. Julgo que este “pensar o que estamos fazendo”, essa disposição aberta para a compreensão, possui uma atualidade extraordinária, principalmente em tempos de comunicação interditada, de polarização exacerbada e de aversão à reflexão e ao testemunho dos fatos. Além disso, as reflexões de Arendt sobre formas autoritárias de condução da vida política, sobre a subjugação da política pela economia, sobre o papel da mentira na política, sobre a relação entre o mal e a recusa ao pensamento, sobre o aumento da violência com a diminuição do poder, sobre a pluralidade como razão de ser da política e sobre o sentido político da liberdade – para mencionar apenas algumas – são decisivas para a compreensão do nosso tempo.

Além das teorias políticas, Hannah Arendt também tratou em seu trabalho sobre educação. Para a filósofa, há uma saída para a crise no ensino? Qual seria?
Arendt escreveu apenas um ensaio estritamente sobre educação, ainda que estudiosos da área tenham promovido discussões altamente inspiradas sobre a relevância para conceitos como o de natalidade e de autoridade para a educação. Arendt defendia que a relação de autoridade é fundamental na relação educativa precisamente porque o educador representa tanto o mundo atual quanto a cultura do passado, concordando ou não com ambos. Essa relação depende da autoridade (de reconhecimento, não de violência) precisamente porque no processo de formação é mais importante para ela o fato de que os estudantes precisam ser preparados para o ingresso no mundo dos adultos do que o fato de que exista um suposto mundo da criança, que não obstante tem de ser respeitado.

Qual futuro você vislumbra para a educação pública no país?
Vivemos a era do ressentimento em que personagens academicamente obscuros que se julgam injustiçados por não serem reconhecidos respondem pela educação nacional. Temos uma pauta ideológica desses adversários da universidade precisamente por não serem protagonistas nela, justamente por não terem produzido obra digna de nota pela comunidade acadêmica e científica nacional. Essa pauta ruidosa turva a visão de ataques mais fundamentais que estão em curso e a pleno vapor: de um lado, e em uma perspectiva mais geral, o questionamento da educação compreendida como um direito fundamental, tal como aparece na constituição, em nome da compreensão da educação como um serviço pelo qual se deve pagar e que deve ser regido pelas demandas do mercado, e não da cultura ou da cidadania; de outro, o questionamento do caráter público do ensino e a busca por restabelecer o conhecido fosso entre formação básica pública e ensino superior público.

Esses ataques são mais fundamentais porque são lastreados politicamente no ressentimento dos que outrora apostaram na educação superior como uma chancela e uma legitimação de privilégios de classe e de prerrogativas de ascendência social e econômica. Parte significativa da legitimidade e da sobrevivência do atual governo depende de atender a demanda desse amplo espectro da população, notadamente de parte da classe média, que reclama não por seu direito ao ensino superior público, que jamais perdeu, mas pela restrição do acesso das camadas mais populares a este nível de formação. Com a ampliação do acesso dos estudantes provenientes da escola pública à universidade, esses que antes a frequentaram não deixaram de frequentá-la, mas perderam o bônus do privilégio. Não podemos subestimar a sobrevida da articulação fundamental da nossa sociedade em torno da casa grande e da senzala, nem o poder do ressentimento. A educação compreendida como um direito e o seu caráter público seguirão em risco mesmo que o atual governo federal continue naufragando e afinal venha a pique.

12º Encontro Internacional Hannah Arendt – O evento, que faz parte da programação dos 40 anos da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe), pretende fomentar o debate sobre as teorias políticas da filósofa alemã e trará ao Recife o ex-ministro da Educação, filósofo e cientista político Renato Janine, e o presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), professor Adriano Correia. A programação acontece nos dias 28, 29 e 30 de maio e inclui, ainda, convidados internacionais, como a professora doutora Beatriz Porcel e o doutorando Adilson Silva Ferraz, ambos da Argentina.
Clique e confira a programação na íntegra

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