Em audiência marcada por agressões, ministro distorce dados sobre universidades

Representando as associações docentes e sindicatos de todo o país que integram o Observatório do Conhecimento, a ADUFEPE marcou presença na audiência pública com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, realizada nesta quarta-feira (22), na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Na ocasião, o presidente da Associação dos Docentes da UFPE, Edeson Siqueira, juntamente com o presidente da ADUFG e diretor do PROIFES-Federação Flavio Alves, entregou aos parlamentares uma lista de cinco demandas urgentes exigidas pela comunidade acadêmica a fim de garantir o pleno funcionamento das Instituições de Ensino Superior com o objetivo de pressionar o ministro contra a decisão de cortar 30% do orçamento destinado à manutenção das universidades públicas.

Em uma sessão marcado por tumultos e duras críticas da oposição aos cortes para a Educação, o ministro Abraham Weintraub repetiu o roteiro apresentado nas audiências realizadas no Senado e no Plenário da Câmara, na quais se dedicou a apresentação de dados direcionados para a educação básica no Brasil. Para Edeson Siqueira, ele tenta construir uma retórica de desqualificação das universidades públicas, do patrono da Educação Paulo Freire e das políticas exitosas da educação brasileira implementadas nas últimas décadas. “Não apresentou nenhuma proposta, ao contrário, desmereceu os programas de mestrado e doutorado e a formação que direciona à criação e desenvolvimento de tecnologia e inovação”, afirmou o docente.

Flavio Alves, da ADUFG, e Edeson Siqueira, da ADUFEPE, representaram o Observatório do Conhecimento na audiência pública.

Ainda segundo o presidente da ADUFEPE, Abraham Weintraub desmereceu os programas de mestrado e doutorado, alegando que o Brasil já possui “doutores em quantidade suficiente” e afirmou que “Paulo Freire e seu método de alfabetização não são reconhecidos e não deram certo em lugar nenhum”. “O que é mais uma ‘fake news’ do ministro, porque apesar de ser rejeitado pela atual administração pública, Paulo Freire está entre os autores mais citados em trabalhos acadêmicos do mundo. Afinal, a serviço de quem está esse governo?”, questionou Edeson.

“O Ministro não tem propriedade para falar de Educação. Sua participação na audiência pública da Comissão de Educação evidencia seu despreparo. Toda a apresentação converge para a formação de técnicos, caminhando na contramão da revolução industrial 4.0, impossibilitando a criação e o desenvolvimento de tecnologia e inovação pelos nossos jovens”, criticou. Segundo ele, enquanto a Alemanha anuncia 160 bilhões de euros para universidades e pesquisas, visando seu desenvolvimento econômica, o Brasil corta os recursos para essas áreas: “Especialistas apontam que estamos caminhando para uma depressão econômica”.

“O Ministro não tem propriedade para falar de Educação”,
avalia Edeson Siqueira, presidente da ADUFEPE

Após a apresentação do ministro, parlamentares de diversos partidos se manifestaram em defesa das universidades públicas. Em sua fala, a deputada pelo PT de Minas Gerais e presidenta da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Universidades Públicas, Margarida Salomão, apontou a “falsa dicotomia entre educação infantil e educação superior” presente na exposição de Weintraub. Posicionamento reforçado pelo deputado Ivan Valente, do PSOL de São Paulo, que também questionou o ministro Weintraub sobre as justificativas contraditórias apresentadas por ele: “O senhor diz que a prioridade é educação básica, mas corta na educação básica”. “É a primeira vez que eu vejo um ministro da Educação que não luta por mais recursos para a Educação”, complementou Pedro Uczai, do PT de Santa Catarina.

Zeca Dirceu, do PT do Paraná, aproveitou a sua fala para apresentar ao ministro e demais parlamentares as cinco demandas formuladas pelo Observatório do Conhecimento para o MEC: revogar imediatamente os cortes de 30% no orçamento de custeio das universidades e institutos federais e de 41% na ciência e tecnologia (segundo dados do Siafi); respeitar a autonomia e a liberdade acadêmica, nomeando reitores e reitoras o primeiro colocado nas consultas à comunidade universitária; garantir a continuidade de todas as bolsas de pesquisa do sistema CAPES; manter programas de assistência estudantil para formação e permanência; e preservar integralmente as políticas de cotas sociais e raciais.

Censura e agressões

A audiência encerrou com tumulto após o ministro Abraham Weintraub se recusar a ouvir o posicionamento dos representantes das entidades estudantis União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Em seguida, parlamentares governistas chegaram a utilizar a força física para impedir a fala dos estudantes e forçar a retirada da plenária.  Em vídeo gravado pelo presidente do ADUFG-Sindicato, professor Flávio Alves, o deputado federal Delegado Waldir (PSL), aparece xingando os alunos e docentes presentes na audiência.

Confira os vídeos:

 


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